Embora a maior parte dos dias decorra de forma monótona e pachorrenta, sem acontecimentos relevantes que alterem a rotina de quem apenas tenta fazer as coisas bem e encontrar o seu espaço de felicidade, outros existem em que algo ou alguém muda, de forma positiva ou negativa, a ordem imposta. Este dia foi um desses. Estavamos em janeiro, numa segunda-feira enregelada e cinzenta onde a alegria de mais uma semana de trabalho após um fim-de-semana chuvosa se expressava nos semblantes carregados dos trausentes. Subi a avenida até à tasca mais proxíma que se me adivinha onde se, por instantes, imaginar-mos com toda a boa vontade que o odor proveniente -juro que em circulos concêntricos- é algum tipo de perfume inovador desenvolvido pelos laboratórios franceses, se pode desfrutar de diárias divinais a preços em conta. Enquanto embrulhado em pensamentos optimistas sobre o tempo que me restava até me envolver novamente no conforto angelical e acolhedor dos meus lençoís, o ser mais perfeito, delicado que alguma vez terá pisado o mesmo que eu -obviamente, uma mulher- caminha, como quem flutua, em dirtecção à primeira mesa a contar do balcão, exactamente do meu lado oposto. Nesse espaço de tempo, abstrai-me de todas as minhas preocupações, glórias, tristezas ou pensamentos futéis que me ocupavam por inteiro o pensamento e me impediam de ver (já diz o povo que "maior cego é quem não quer ver") que, afinal a vida é bela e vale a pena ser aproveitada, que afinal é melhor dar importância ás alegrias que ás tristezas e que, acima de tudo, é mais importante viver agarrado ao presente do que ao futuro ou ao passado, pois o que já lá vai, vai, e o que vem nimguém sabe. Milhões de ideias, ou quem sabe biliões ou triliões vieram-me à cabeça sobre como estabelecer contacto com tal perfeição da natureza, que apesar do aspecto seguro e confiante, não disfarçava no pequeno tremor na perna esquerda, na teimosa mão sobre a anca ou no olhar límpido e transparente as marcas de uma vida feita de remendos. Até que num momento de rara lucidez perguntei a mim mesmo se verdadeiramente queria aproximar-me de alguém com capacidade para, tantos anos depois, me fazer sentir vivo e surpreendido, como quem encontra em si um tunél secreto muitas vezes desenhado em mapas, mas impossível de descobrir quando procuramos. Afinal, o mais provável seria ser mais uma da infindável lista de pessoas vulgares e dessinteressadas que as sociedades se especializam em produzir em número cada vez maior. Valeria mesmo a pena arriscar tal momento eterno?
