quarta-feira, setembro 08, 2004

Feminismo

O bom de possuir um blog é que - naqueles dias em que se o Estádio da Luz estivesse cheio o pássaro arranjava maneira de me cagar em cima - posso sempre descarregar a minha fúria no rol interminável de mentes captos que existem nestes país.
Soem os tambores... o eleito de hoje é... um jurí dos ídolos cujo nome não me lembro nem me interessa. De vez em quando, muito longe a longe, confesso que me dá um certo gozo assistir ao desfilar de pseudocantores com a auto-estima profundamente elevado não sei por obra de que "espelho meu" mas definitivamente é de um desses que eu preciso, sobretudo quando cantam tão bem como uma vaca a parir. Não foi no entanto os danos irreparáveis no meu tímpano que me levaram a publicar este post, já que estou muito longe de ser um Sinatra propriamente dito.
O que na verdade me tirou do sério foi um dos habituais comentários infelizes e compreensíveis apenas tendo como pano de fundo a lógica das audiências feito por um elemento do júri, já que alguns chegam mesmo a pisar o risco do ataque pessoal e noutros casos cortam vorazmente o sonho de carreira de muitos "artistas". A certa altura entrou para proceder ao casting uma rapariga extremamente tímida e humilde mas possuídora de uma voz angelical que rapidamente encantou o júri. O tempo de espera feito pelos 4 "cowboys" e a insegurança da esperança a ídolo fizeram com que irrompesse num choro inconsolável enquanto esperava pelo veredicto final. Obviamente ganhou o seu lugar na próxima fase, mas talvez esse bilhete lhe tenha custado a própria dignidade como ser humano ao ter de ouvir o seguinte comentário: "Fica-te muito bem essa humildade". Se não deste modo parecido, quem quer saber.
O referido elemento, um homem com cabelo curto, magro e com quatro olhos a quem só falta os sapatos 54 e um nariz "à Vilarinho" para pareçer um verdeiro palhaço com lugar priveligiado em qualquer "Cardinalli" pelo mundo fora deve ser ainda um troglodíta a viver no tempo da pré-história. Embora não pertença a esse sexo, faço da luta pela igualdade feminina uma luta minha também e destroça-me ouvir pessoas como este senhor.
A emancipação das mulheres tem vindo a sofrer avanços progressivos, tanto no nosso país como na maior parte do mundo civilizado, mas a ideia de a mulher ser um ser frágil e a necessitar da ajuda masculina ainda está bem vincada, como comprovei ao constatar num estudo recentemente realizado que as mais bem sucedidas nas entrevistas de emprego são as que aparentam falta de confiança e não olhem o entrevistador nos olhos. Por muito que espante muita gente conservadora dos bons costumes, o direito à confiança, ao egoísmo, à ambição, ao querer, não se limita ao sexo masculina. Não consigo suportar, de tanto ver, mães que transmitem às suas filhas filosofias de soberania masculina, deitando por terra a coragem de muita e muitos anónimos que todos os dias esquecem parte das suas vidas para verem a sua filha crescer num mundo mais justo. Uma mulher que se preze, segundo o código de honra existente sei lá onde, fala baixo e é discreta, trata das tarefas domésticas enquanto o marido lê o jornal, embala os filhos, chega a casa mais cedo para tratar do "comer", anda de pernas entreabertas para gaudio dos homens, ouve os problemas do marido ao jantar sem no entanto ter opinião e está disponível a qualquer hora a que o desejo do homem se evidenciar.
É por tudo isto que a afirmação do "Sr. Cardinalli" é inadmissível, e eu gostava era de vê-la repetida a um homem, se houver moral para tanto. Só para finalizar quero também dizer que existe um tipo de homem obrigado a viver sobre o preconceito da humildade, que é o pobre, ignorante e inocente. Expoente máximo è Mantorras, avançado benfiquista a quem a humildade fica muito bem, pois parece que não pagou uma dívida a não sei quem e não merece a piedade também não sei de quem -o seu sucesso a si próprio o deve- se se puser em bicos de pés.