quinta-feira, setembro 16, 2004

O Evangelho Segundo Miguel Sousa Tavares

Escreveu assim Miguel Sousa Tavares (MST) na sua crónica de Sexta-feira no Público: “Finalmente, alguém no mundo islâmico pôs a mão na consciência e ousou dizer a terrível verdade: ‘Todos os terroristas do mundo são muçulmanos.” Até aqui, embora a afirmação não seja verdadeira, tudo bem. Mas continua: “…à constatação de facto acrescenta (…) a condenação moral da sociedade islâmica de hoje: ´ Os nossos filhos terroristas são o produto final da nossa cultura corrompida ’.” Diz ainda só isto: “Nós temos razão e eles não”

O resto é constituído por lugares-comuns, tudo muito debatido, o Corão isto, o islamismo aquilo, um cheirinho a lábia, previsível e aborrecido, mas a página é dele e tem que a atulhar com qualquer coisa. Tudo muito bonito, mas MST comete um erro frequente: julga os outros pelos seus próprios valores.

Ora bem, não tenho mais paciência para palhaçadas ideológicas, políticas e muito menos religiosas. E acho que os leitores também não. Vou ser directo e analisar o problema do ponto de vista humano. Obviamente que a espécie de Democracia em que vivemos está muito mais avançada que em certos países Muçulmanos. Mas só esse facto não confere ao Ocidente e particularmente aos E.U.A. o epíteto de “justiceiros do mundo”. Eu não consigo catalogar um acto em que meia dúzias de indivíduos se infiltram num avião e arriscam a vida por uma causa em que realmente acreditam, ou o contrário acontecesse não davam a sua vida, de terrorismo, e ver a destruição de Bagdad, através de bombas lançadas por navios de guerra e sem pôr em perigo ninguém, por ordem de meia dúzia de pessoas, sobre as quais ainda não inventaram injúria ao seu nível, sentadas confortavelmente a contemplar as suas contas bancárias crescer, sob o disfarce de guerra justificada, ou como está na moda, preventiva. É terrorismo e bem pior. Para além do mais, os abusos constantes do Ocidente são a principal razão que leva à tal “corrupção da cultura islâmica” e ao engrossar das filas da Al-Qaeda. O contrário acontecesse, e talvez as pessoas não se virassem para a religião. Afinal, quem impôs um Ayatolah no Irão? Eu, pessoa equilibrada, não gostava de ter um fundamentalista islâmico, tal como Bush o é em relação ao cristianismo, a ditar regras no meu país, e nessa altura provável era eu pegar na arma e ir à luta. Quem está certo? Provavelmente ninguém e todos nós temos culpa, nesta história, podem ler de todas as maneiras, não existem inocentes.