domingo, setembro 12, 2004

O poder do olhar




Muitos – no contexto, é claro, das poucas visitas que o blog regista – dos leitores, ao constatarem o fascínio que Maria Sharapova exerce sobre a minha pessoa, ter-se-ão debruçado sobre as suas causas e raízes. A esmagadora maioria terá mesmo exclamado um “Eureka” baseado na beleza da Siberiana. Para quem, legitimamente, assim pensa, só tenho uma palavra a dizer: errado.
A vida é madrasta, embora uns sejam filhos e outros enteados, e coloca-nos frequentemente muros difíceis de saltar e piscinas difíceis de nadar. Mentia se dissesse que melhor seria um mar de rosas, assim fosse, tornava-se insustentável aqui viver. No fim de contas, o que seria da felicidade sem a infelicidade? Ou valeria mesmo a pena a Armstrong subir os Pirinéus se fosse fácil? Se fosse fácil todos o faziam e lá ia a piada todo para o tecto. Cabe-nos a nós afiar a faca do mato ao nosso gosto e abrir caminho por entre a ramagem virgem. Não raras vezes todos nos enganamos no trajecto, e precisamos de uma chama que nos oriente, sempre subjectiva.
Isto para dizer que em períodos de crises todos nos prendermos psicologicamente a algo. Exemplo universal: a religião. Não há uma civilização que não possua uma. O objectivo de aqui estarmos, o porquê do acaso e da infelicidade, o que existe para além, um paraíso a esperar ou um inferno a temer, – que normalmente funciona como mais uma amarra nas liberdades – tudo questões a que a bíblia, ou o Corão, tanto faz, responde e satisfaz os crentes. A esperança que o Senhor tenha amanhã algo melhor reservado e a sua preocupação sem limites sobre cada um de nós aconchega muitos espíritos e fá-los acordar no dia seguinte com vontade de viver. Como disse um qualquer filósofo, “Se Deus não existisse tinha que ser inventado”. Invejo essas pessoas pois se assim eu fosse provavelmente aumentava minha qualidade de vida. Porém sou ateu e não consinto que Deus algum que nunca me foi apresentado guie por minha vez.
Posta de lado esta incrível saída pelo elementar facto de o meu raciocínio não compreender tais fenómenos, referências culturais foi o que de melhor se arranjou. Quando simplesmente venero um filme, livro, música e afins imagino-me nas situações criadas. A maior parte das vezes não se tratam de obras de arte, mas histórias que me preenchem. Tendências assustadoras possuíram-me nos momentos brilhantes em que Kevin Spacey (Beleza Americana) atirou o prato contra a parede, Xavier (Residência Espanhola) partiu para Barcelona, Bill Murray (Lost in Translation) pede mais um whisky no bar do hotel. Alguém terá lido ou visto a peça “O que diz Molero?” sem desejar uma vida como a do rapaz? Ou alguém ouve o “Something stupid” de Sinatra sem imaginar uma mulher ao lado?
No entanto todos estes tipos de arte pereciam do aspecto “realidade”, algo falhava. Referências humanas, embora as tivesse, como é o caso de Lobo Antunes, com o qual pensamento e experiências por vezes me identifico ou tento, não preenchiam nem metade de metade do vazio. Até à era D.S. – Depois de Sharapova. O seu surgimento na mais alta ribalta do ténis feminino mundial permitiu-me ficar ao corrente da sua existência e, desde o seu primeiro jogo em Wimbledon a que por coincidência assisti, acompanhar a carreira desportiva. O que inicialmente me chamou a atenção foi realmente a sua beleza mas, mais à frente, reparei num pormenor que todos os dias me acompanha e me faz acreditar: o olhar. È fantástico e só tenho a dor de não ter qualidade suficiente para o descrever. Transmite vontade, alegria, competitividade, amor e mais adjectivos para quê, se a própria simplicidade também lá está? Talvez a frase proferida por Jimmy quando primeiro viu Louise (Thelma e Louise), “Tens um belo par de olhos”, devesse permanecer religiosamente guardada e só deixada à solta num raio de 5 metros de Sharapova. Merecia. Ave-maria.