domingo, dezembro 26, 2004

E agora apenas um pedaço do teu olhar, do teu sorriso. A noite apodera-se de mim e observa-me pouco preocupada, numa calma imperturbável. Sinto-me mal, um vazio no estômago invade-me mas não se expõe, recusa-se a reivindicar e não o consigo perceber, as suas causas ou razões. Sei que falta algo, sei que quero mais, ou se calhar não quero mais mas quero diferente, melhor, ou se calhar nem melhor, apenas isso mesmo, diferente. Ou se calhar nem mais, melhor ou diferente, mas apenas tu hoje ao meu lado num sorriso que nunca acabe. Gosto de pensar que te conheço desde sempre e se calhar é verdade. Afinal, comecei a viver realmente no momento em que te vi, em que te conheci. Tudo o resto foi uma preparação, um aquecimento para o que se seguia. Engraçado como ainda há pouco tempo não sabia sequer que existias e hoje dependo do teu olhar, e necessito dele como de água para beber. Ao menos um aviso, um sinal, qualquer coisa que te desse a conhecer aos poucos, mas não, surgiste assim, do nada, do imprevisível, do desconhecido. Ainda não te agradeci e ainda não te disse quanto te amo. É provável que nunca sequer o venha a fazer. Espero apenas que o saibas, que o precintas ou que ao menos suspeites o que eu sinto. Se nunca o fiz foi por uma cobardia incontrolável que me impede de realizar sequer um movimento nesse sentido, e não por egoísmo ou ingratidão. É que às vezes não sei se tu do mesmo modo que eu. O teu passar indiferente, o teu absentismo que me roí e me consome como um veneno altamente mortífero que só tu sabes como travar. O fumo do cigarro suspende-se por entre os meus olhos e mistura-se com as lágrimas silenciosas que escorrem pela face e caem sobre o casaco. Mas ao mesmo tempo estou estranhamente calmo. Dizem que alguém só morre verdadeiramente quando não viver mais nos corações de ninguém. Até hoje não compreendia e achava puro eufemismo da realidade. Agora sei que tu, mesmo que nunca mais ao meu lado, sempre comigo aconteça o que acontecer. Olho para o tecto e lembro-me de tudo o que passamos e fizemos, dos risos e das tristezas, dos altos e dos baixos. My ups, my downs, and you always with me. Já nem me lembro quem sou nem quem era, sou uma parte de ti e o muito do que tenho de bom é tua responsabilidade. Adormeço na esperança de que outro dia venha e nós na mesma, mas sei que é ilusão, sei que é impossível. Nada pode durar para sempre e apercebo-me que nada seria igual. Perco-me no desconhecido sempre com o teu sorriso no pensamento, meus olhos em busca dos teus, amo-te, hoje e sempre.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Estou a olhar para o ecrã à cerca de meia hora e não me ocorre nada para vos dizer. Vagueio na net, encontro inúmeros balanços do ano e apercebo-me que não me lembro sequer do que comi ontem, quanto mais do que o que se passou em Janeiro. É engraçado que temos sempre uma tendência para avaliarmos o ano com base no que nos aconteceu nos últimos dois ou três meses, ou mesmo nos últimos quinze dias. Sendo assim tento sempre fazer dos derradeiros períodos os melhores, engano-me algumas vezes a mim próprio e penso que o ano que passou foi excelente e que o que aí vem só pode ser melhor. Na realidade não existe melhor ou pior, apenas diferente e apenas fases na vida de cada um. Não se pode viver sempre no topo, e não há mal que sempre dure. No geral tudo passa, não à de ser nada. Assusto-me com a velocidade com que os acontecimentos nos envolvem e como o que hoje é uma ambição amanhã é uma realidade, e como o que hoje é um medo amanhã é um facto. O governo caiu, o Porto fez o impensável e venceu a liga dos campeões, bush tem mais quatro anos à sua frente. Esperemos que passem rápido, como tudo. Um pouco de solidariedade nesta época, não porque é natal, mas porque às vezes é preciso parar e amar. Daqui a pouco vou acabar as compras de natal e imagino-me a correr pelo centro da cidade de sacos na mão, atarefado, no meio da multidão imperturbável. Estamos tão ocupados a viver que muitas vezes nem aproveitamos o que isso tem de bonito. Esta semana é diferente. Por uns tempos vou esquecer o que é a vida do lado de lá. Bom Natal para todos.

domingo, dezembro 12, 2004

Embora ainda não exista uma confirmação oficial por parte do governo da Lapónia todos os indícios apontam para que o pai natal não consiga passar este ano pelas chaminés portuguesas, o que irá certamente provocar a ira de milhares de crianças por este país fora. A parca condição física e a forte pontada nos rins de que tem sofrido durante os últimos meses não permitem que exerça demasiado esforço físico, tendo por isso de deixar de fora da sua lista vários países, entre os quais o nosso. Em relação aos outros países prejudicados incluem-se todos os do continente Africano, já habituados a isto; a América Central e do Sul e maior parte da Ásia.

O médico oficial do Pai Natal, em declarações à imprensa, declarou ser quase impossível a sua recuperação. "A idade começa a pesar, e para além disso a barriga já vai avançada. Para atravessar todo o mundo precisava de emagrecer uns bons 100 quilos e deixar a coca(cola)", disse. Corre também o rumor de que o cinto oferecido pelo governo português terá prejudicado de forma irremediável o bom funcionamento do organismo, e para piorar a situação foi atingido por um DVD que não se sabe bem de onde apareceu em cheio no crânio.

Quem está muito preocupado com a situação é o presidente da republica, Jorge Sampaio, que já estava filado num novo governo no sapatinho. Trap está também apreensivo pois esperava ter Robinho (quem, o Ricardo?) no sapatinho e Paulo Almeida (quem, o Miguel?) na enfermaria.

segunda-feira, dezembro 06, 2004


(Desculpem a qualidade mas foi o que se arranjou. Abram a imagem que fica visível)

Não é de hoje nem de ontem: nunca gostei de velhos do restelo, profetas da desgraça. Maior parte dos comentários deste género não me chegam sequer a fazer cócegas na ponta dos pés, tanto mais que no geral quem os profere ou não sabe do que fala ou não sabe pensar por si. Joaquim Letria insere-se nos que não sabe do que fala. No entanto, pelo que já deu a Portugal, merece ser refutado condignamente e não ignorado, merece ser apoiado e não seguido nas opiniões.

A geração j de que fala é realmente uma geração que nasceu em democracia, que não passou pelos problemas de ordem social, económica e política de outras épocas e que dispõe de todo um mundo de novas possibilidades e facilidades para triunfar - só aceito que alguém critique estas novas condições por inveja, uma vez que já não vivemos na época de Salazar. É também a geração que vai ser responsável por repor todo um país que a anterior geração conseguiu enfiar na cauda da Europa e fazer dele moderno e avançado. Se é inexperiente? Obviamente que sim, mas se tal acontece muito se fica a dever à falta de modelos de gestão a seguir ou à falta de um plano prévio.

A geração j não se formou em claques futebolísticas repletas de inergumenos. Raros elementos fazem parte desse tipo de associações. A geração j não arranja caldinhos em gabinetes de ministros ou secretários de estado. Muitíssimo poucos o fazem. A geração j é, na sua esmagadora maioria, constituída por jovens capazes e inovadores com novas ideias e ideais, não mais disposta a acatar com todo o tipo de injúrias permanentes e obstáculos que lhes são colocados sem dizer basta, preocupados em respeitar e enraizar os princípios da liberdade e da igualdade. A geração j lê (alguns mais que outros) e está informada sobre os seus direitos e deveres e não pode mais ser atropelada por ignorância. Se a geração j pouco aprendeu durante a sua formação escolar muito a vós o deve, incapazes de reestruturar a educação em Portugal.

Ao contrário do que maior parte das pessoas pensam nós - também me insiro nesta juventude - não somos perigosos ou sequer estamos a fazer cair valores da sociedade. O que estamos é a criar outros e isso está longe de ser prejudicial, é positivo e evolutivo e tem que ser no mínimo respeitado. A subida da cultura das pessoas faz com que usem os seus dois dedos de testa e não tenham obrigatoriamente de aceitar dogmas completamente obsoletos. A sociedade tem que andar para a frente e só com novos pensamentos somos capazes de o fazer. Desculpem-me homens da manutenção da ordem, mas para mim casar não é viável uma vez que sou ateu, para mim a família não me diz nada por aí além, tenho amigos homossexuais e rastafaris, tenho outra ideologia de vida. A questão da tropa é tão imbecil para uma pessoa como o Joaquim Letria que me escuso a comentá-la.

Obviamente que a geração j não é só rosas. É notória a subida da criminalidade, mas isso é um dos problemas inerentes às desigualdades existentes e à possibilidade de revolta dessas mesmas pessoas. Incomoda os ricos e novos-ricos, que tremem à pequena amostra de insatisfação e tentam reprimir o inconformismo na tentativa egoísta de manterem as suas pequenas fortunas. Alguma da geração j (pouca) é também individualista e pouco disposta a abrir mão de certos luxos. São os filhos de papás ricos e habituados ao luxo e ao conservadorismo. Mas felizmente a situação está a mudar tanto aqui como em todo e mundo e uma coisa é certa: nós somos mais, muitos mais, e a era do consumismo desmedida e sem regras ou respeito à de cair às nossas mãos. E não se esqueçam que vimos quase toda esta geração contra uma guerra ilegal.

Falta então pouco para conhecermos esta geração e o que de melhor e de irreverente ela tem. E que deixem as "mentes sujas" com as novas filosofias de vida tentar remendar o que vocês estiveram tão longe de conseguir.