quinta-feira, janeiro 13, 2005

Efeito Tsunami

Muitas vozes respeitadas no panorama intelectual nacional têm-se vindo a mostrar muitíssimo indignadas com a velocidade com que o tsunami que abalou a região asiática passou ao esquecimento, tornando-se mais uma página histórica longínqua nas mentes do povo. Embora concorde que o bombardeamento de informação a que somos sujeitos por parte da comunicação social, o que não se reflecte em qualidade, faça com que tenhamos as emoções controlados pelos sentidos, especialmente o visual que depressa esmorece, não posso de modo algum acusar ninguém de hipocrisia e falta de humanismo ou frieza. Estima-se que mais de 160 mil pessoas terão morrido naquela que foi a maior tragédia de que tenho memória. E apesar de tudo amanhã eu vou-me levantar e enfrentar mais um dia. E assim irão fazer também todos os que passaram por esta traumática experiência e que em muitos casos perderam familiares e todos os bens. O que quero dizer com isto é que não se pode pedir às pessoas que chorem e andem cabisbaixas até alguém sentir que já passou o tempo suficiente de luto sem se correr o risco de ser chamado de desumano. As catástrofes acontecem e nada se pode fazer senão ajudar os que ainda vivem, como muita gente sensibilizada tem vindo a fazer numa verdadeira onda de solidariedade para com as vítimas. Por esse prisma muita mal andava o mundo se as pessoas não conseguissem estar preparadas para aceitar as injustiças que muitas vezes nos proporciona. Não é o esquecimento que é rápido, mas os acontecimentos. Não vou estar com hipocrisias, eu não fui dos que chorei a morte daquela gente uma a uma. E acho que ninguém o fez. Mas por muito que viva não esquecerei os dias em que a contagem dos mortas subia de forma imparável. A própria distância a que as coisas se desenrolaram provoca uma sensação de que tudo aconteceu noutra realidade que não a nossa, longe da segurança da nossa casa. Obviamente que me impressionou imenso a dimensão dos danos humanos causados, e especialmente dos sobreviventes que persistem naquelas zonas sem famílias e em condições precárias, mas pelo bem da minha saúde mental não me peçam para recordar a catástrofe a todo o momento. Vamos esquecer um bocado o criticar por criticar, o afastamento das pessoas é natural e salutar e tem que se aceitar que o ser humano quando nada mais pode fazer apenas pode prosseguir.