Sob a luz semi-ofuscante de uma lanterna desaparece o medo que eu tinha, a superioridade que possuias depositás-te-a no foco, em forma de pilhas que permitem iluminar minha vontade imcomensurável de te possuir aqui e agora. Tenho de confessar que tive a sorte do meu lado. Mas quem, num momento ou outro, não precisa de um empurrãozinho dessa mística entidade imcompreensível que não olha a idades ou estatutos sociais, que vira o seu sentido mais rapidamente do que expelo o fumo do cigarro. Que digo eu?, num momento ou outro: a sorte é sempre necessária e sempre bem-vinda. No fim de contas, que somos nós senão um absurdo somar de sortes e azares inumeráveis? Ora viro à direita e embato no meu algoz, ora inflicto à esquerda e cruzo olhares com o meu futuro amor. Como papas ao almoço e sinto-me mal, dirigo-me ao hospital e encontro o meu futuro melhor amigo que por mero acaso trocou de turno com um colega a quem o avô morreu. Ultimamente tem-me faltado esta pinga, e quanto mais a procuramos mais depressa ela foge. Hoje não. Estava sozinho contigo pela primeira vez quando a luz falhou. O joão tinha ido alugar um filme qualquer, acção, comédia, ficção, que interessa. Quem diria que tens medo do escuro, mas é verdade. Vesti a pele de um Super-homem de trazer por casa, o olhar desinteressado de à uns minutos virou humildade e medo. Como em pouco tempo as situações se invertem e quem está por cima vira preza. Sei lá que viste em mim, talvez a mesma atracção que algumas mulheres sentem por homens fardados, e eu era esse homem, o herói, também não interessa por aí além. Beijaste-me avidamente, língua a roçar as paredes dos maxilares, a percorrer os dentes furiosamente. E foi aí que me senti fraco, inútil, manietável. E essa sensação que me percorria encravou-me os movimentos. Por que razão podia-se ela dar ao direito de me invadir a carne sem autorização prévia, sem sinais de concessão? Fosse o contrário o sucedido e era um animal machista a vida toda. Pensamentos invadiram-me com a força de um exército, saí. Para nunca mais voltar, pelo menos em forma de produto.
